O Perigo de Mudar a Regra com a Bola em Jogo: A Dosimetria e o Futuro da Democracia

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No jargão esportivo popularizado por Galvão Bueno, a máxima é absoluta: "A regra é clara". No entanto, nos bastidores do Congresso Nacional, o que se observou foi uma tentativa perigosa de tornar a regra "elástica". O debate sobre o Projeto de Lei que visa alterar a dosimetria das penas — o cálculo técnico que define o rigor da punição — acendeu um alerta em todos os setores que prezam pela estabilidade institucional do país.

O Casuísmo como Armadilha

A grande preocupação de juristas e da sociedade civil é o caráter casuísta da proposta. No "calor do debate político", movidos pela intenção de amenizar sentenças impostas por ações recentes e amplamente conhecidas, legisladores mudaram as normas do jogo enquanto ele ainda está acontecendo.

O problema dessa visão imediatista é o seu custo a longo prazo. Ao enfraquecer leis para resolver o "problema" de hoje, o Congresso pode estar, inadvertidamente, pavimentando a estrada para o caos de amanhã.

O Encorajamento da "Escuridão"

A lei não serve apenas para punir; ela serve para dissuadir. Quando as rédeas da dosimetria são afrouxadas por conveniência política, o recado enviado aos "adoradores do poder" é de que o crime contra o Estado pode passar a valer a pena.

Se amanhã grupos alucinados, independentemente de ideologia ou posicionamento, decidirem agir na escuridão para tomar as rédeas do país, eles encontrarão um sistema jurídico fragilizado. Uma lei desidratada hoje é o combustível para o encorajamento de tiranos amanhã. Sem penas severas e proporcionais, a proteção da democracia torna-se meramente simbólica.

Pode isso, Arnaldo?

A pergunta que ecoa na sociedade brasileira é direta: pode-se mudar a lei para proteger o presente, sacrificando o futuro? A resposta, sob a ótica do Direito e do bom senso, deveria ser um sonoro não.

A dosimetria não é um detalhe burocrático; é a balança que equilibra a justiça. Se a balança for viciada para atender interesses de ocasião, perde-se a confiança no Poder Judiciário e na própria República.

Como bem lembra a filosofia do esporte aplicada à vida pública: o que está na regra deve ser cumprido. O Congresso e as "pessoas de bem" deste país precisam refletir se o alívio momentâneo de alguns justifica colocar em risco a segurança de todos. Afinal, sem regras sólidas, não há jogo — e, sem justiça rigorosa, não há democracia que resista ao tempo.